O uso prolongado e inadequado de Zolpidem pode trazer consequências sérias para a saúde quando o medicamento é prescrito ou utilizado sem avaliação cuidadosa e acompanhamento adequado.

Um caso ilustrativo

Uma paciente de 80 anos chegou ao meu consultório de psiquiatria já utilizando 12 comprimidos de Zolpidem por noite, e ainda assim sem conseguir dormir de forma satisfatória. Durante o dia, apresentava catatonia, permanecia longos períodos olhando fixamente para o teto, tinha dificuldade extrema de memória recente e mal conseguia lembrar se havia se alimentado.

O uso começou em consultas muito breves (cerca de 5 minutos), realizadas a cada três meses por um profissional que atendia grande volume de pacientes pelo convênio. A queixa de insônia levava ao aumento progressivo da dose. Posteriormente, o mesmo padrão se repetiu em atendimentos de clínica geral. Com o tempo, a paciente passou a obter o medicamento diretamente com um farmacêutico conhecido, sem receita médica, caracterizando automedicação.

Após insistência de familiares, ela veio ao meu consultório e pude fazer uma consulta psiquiátrica mais detalhada. Foi identificada depressão como fator principal da insônia. O tratamento envolveu manejo da depressão, redução gradual do Zolpidem, orientações sobre higiene do sono, atividade física e retomada gradual de vida social. A retirada do medicamento foi difícil devido à dependência instalada, mas foi possível com o suporte adequado. Atualmente, a paciente mantém acompanhamento e apresenta melhora significativa na qualidade de vida e no sono.

Contexto brasileiro: alto consumo de sedativo-hipnóticos

O Brasil apresenta um dos maiores consumos mundiais de medicamentos sedativo-hipnóticos, incluindo Zolpidem, Zopiclona, clonazepam (Rivotril) e bromazepam (Lexotan). Dados da Anvisa mostram crescimento expressivo nas vendas de Zolpidem nos últimos anos, com milhões de unidades comercializadas anualmente, muitas vezes em uso prolongado ou sem indicação precisa.

O problema central não reside na existência dessas medicações — que têm utilidade comprovada em situações específicas —, mas no modo como são frequentemente prescritas e utilizadas: consultas muito curtas, aumentos sucessivos de dose sem reavaliação, pouca investigação da causa da insônia e fiscalização insuficiente sobre dispensação sem receita.

Riscos associados ao uso inadequado e prolongado de Zolpidem

Quando utilizado por tempo prolongado ou em doses elevadas, o Zolpidem pode estar relacionado a:

  • Tolerância (necessidade de doses maiores para o mesmo efeito)
  • Dependência física e psicológica
  • Insônia rebote ao tentar interromper o uso
  • Sonolência diurna, tontura e maior risco de quedas (especialmente em idosos)
  • Alterações cognitivas: confusão, amnésia anterógrada, dificuldade de concentração
  • Comportamentos complexos durante o sono (sonambulismo, alimentação ou direção no sono)
  • Possível agravamento de sintomas depressivos ou ansiosos a longo prazo

Princípios para um uso mais seguro de medicamentos para insônia

A insônia persistente raramente é um problema isolado. Na maioria dos casos está associada a depressão, ansiedade, estresse crônico, hábitos inadequados de sono (ex.: uso excessivo de telas à noite) ou outras condições médicas.

Uma abordagem mais adequada envolve:

  • Avaliação cuidadosa para identificar as causas subjacentes
  • Uso de sedativo-hipnóticos (como Zolpidem) apenas por período curto e com indicação clara, preferencialmente como medida temporária
  • Priorização de intervenções não medicamentosas: higiene do sono, atividade física regular, técnicas de relaxamento e psicoterapia
  • Acompanhamento regular para reavaliação e redução progressiva da medicação, sempre que possível
  • Reconhecimento de que a conversa terapêutica e o vínculo com o profissional de saúde mental são elementos centrais do tratamento

Medicamentos como o Zolpidem podem ser úteis em contextos específicos e por tempo limitado. O desafio está em garantir que sejam utilizados dentro de um cuidado de qualidade, com avaliação individualizada e monitoramento contínuo.

Casos de problemas graves associados a esses medicamentos costumam refletir falhas mais amplas: no acesso a consultas de qualidade, na formação continuada, na organização dos serviços de saúde e na fiscalização sanitária.

Se a insônia ou o uso prolongado de sedativo-hipnóticos estiver gerando preocupação, a recomendação é buscar avaliação especializada em saúde mental para um manejo mais completo e seguro.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *